PRESUNÇOSO, TOLO E MAL ESCRITO, LIVRO DO “MENINO DO ACRE” É PURO LIXO

PRESUNÇOSO, TOLO E MAL ESCRITO, LIVRO DO “MENINO DO ACRE” É PURO LIXO

Não pense em sexo, durma pouco, seja vegano e viva isolado. Essa é a base para que talvez você consiga se transformar em um gênio do quilate de Isaac Newton, Leonardo da Vinci ou Nikola Tesla.

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Quem defende a ideia é Bruno Borges, mais conhecido como “o menino do Acre”, que ficou desaparecido durante mais de quatro meses e agora lançou “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento”. O livro, garantem, é a primeira parte do material que deixou criptografado pelas paredes de seu quarto em Rio Branco. O volume sai pela Arte e Vida, editora tão obscura quanto tudo o que envolve o caso.

Na obra, o autor tenta ensinar como alguém pode se tornar pleno para a absorção do conhecimento. A ideia é que sem gastar tempo com impulsos carnais, sem usufruir de alimentos que podem incentivar a gula, dormindo pouco e sem ter que se dedicar a terceiros, qualquer cidadão estaria em uma situação extremamente favorável para desenvolver criativamente suas ideias.

O problema é que, não bastasse a tese em si ser questionável, a argumentação de Bruno beira o cômico. “A importância de refrear os impulsos sexuais por parte de grandes homens que não tinham tempo para ações libidinosas, pois, como disse Santos Dumont, ‘ou constituo uma família ou renego isso e desenvolvo o avião’, é verificada no que diferencia o homem dos outros animais”, escreve, por exemplo, ignorando que Dumont, como Arthur Japin mostrou em seu “O Homem Com Asas”, era homossexual, o que contribuía para que tirasse o foco de sua sexualidade em uma sociedade extremamente homofóbica. (Observação: todas as citações deste texto estão exatamente como aparecem no livro, sem qualquer tipo de correção ou edição).

O autor se define como crudívoro – consome basicamente comida crua – e defende uma alimentação vegana porque assim a pessoa deixa “de se alimentar por coisas que dão uma série infindável, quando temperadas, claro de sabores e misturas alimentícias, na qual esta mesma pessoa que se abdicou disto sabia o quão prazeroso era. Ora, se este também fosse guloso como quem come de tudo, então como ele conseguiria se conter?”.

Já sobre o sono, defende que se durma pouco e de modo polifásico. Segundo ele, “sábios” como Thomas Edison, Jesus Cristo, Albert Einstein e Napoleão Bonaparte tiravam apenas sonecas de cerca de 2 horas. “Conta-se que Da Vinci dormia irrisórios 20 minutos diários”, relata, para depois se colocar junto dos grandes gênios:

“Eu mesmo, quando criando e me cerceando desta energia criativa e poderosa, durmo de 2 a 4 horas por dia, e, quando eu tinha 20 anos, passei uma semana dormindo 30 minutos diários e alguns dias eu não dormia, com todo o furor e sobre jejum eu me postava a desenvolver obras que me faziam ficar alarmantemente inspirado”.

Hitler e Gandhi no mesmo balaio

Chama a atenção nos escritos de Bruno as personalidades nas quais ele busca inspiração e baseia suas teorias. Em cinco linhas, vai de Aristóteles e Platão a Augusto Cury e não vê problema em colocar Gandhi e Adolf Hitler em um mesmo patamar de sabedoria. Michael Jackson também é figura fácil pelo livro. Outro músico ao qual faz referência é Raul Seixas, que, se não aparece explicitamente, claramente inspirou o seguinte trecho que precede a conceituação de elementos que servem de base para a TAC:

“Caso sinta-se distraído ou ache uma tarefa enfadonha estudá-las, o que obviamente não passa de 2 laudas, seria útil perdir-lhe somente mais um favor: cerre este livro de uma vez e senta-te sobre o gramado, escancare a tua boca cheia de dentes e espera a morte chegar”. Cópia descarada de “Ouro de Tolo”.

Pior livro que já resenhei

Bruno foi presunçoso ao escrever “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento”. “Espero que este estudo, baseado na maneira como utilizo para criar, que haja novas metodologias que alcancem a potência criadora que a minha proporciona e que possa servi-lhes como uma arma poderosa de auto revolucionar-se a si mesmo e ajudar no progresso da humanidade”.

O problema, sinto informá-lo, é que será muito difícil uma obra tão mal escrita ajudar em alguma coisa. Como disse, não fiz nenhuma edição ou correção nas citações aqui utilizadas, que deixam claro o nível do texto do garoto (“auto revolucionar-se a si mesmo” é uma grande pérola). Se o que viu até aqui ainda não foi o suficiente para notar o quanto Bruno escreve mal, dê uma olhada nesse outro trecho:

“Deste modo os ensinamentos que Sócrates passou a Platão ao tomar a cicuta que tirou a sua vida, fez de Platão o criador do tão famoso mito da caverna, pois Sócrates passava conhecimentos aos seus alunos a respeito da verdade por meio de lições, sem deixar nada escrito, e quando ele, tendo a opção de fugir, decidiu não aceitar a condição e se tornar um mártir, tomando a cicuta pelos seus ideais, deixava com este ato um último ensinamento para os alunos, e um de seus alunos foi Platão”.

“TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento” é uma mistura de falta de noção e obviedades mal acabadas apresentadas em um texto terrível. “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento” é péssimo, um volume completamente dispensável, uma prova de que às vezes é melhor não ler nada. É triste que isso tenha ido parar até em listas dos mais vendidos. Em dez anos trabalhando com livros e literatura, jamais havia resenhado algo tão ruim.

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20/08/2017

Fonte: Rodrigo Casarin

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