AMOR, IDADE E PRECONCEITO

Esta semana eu tive um desentendimento com um dramaturgo de São Paulo, que envolveu, novamente, a questão do humor e seus limites e o papel de uma intelectualidade que compactua com os preconceitos, tudo em nome do “Humor”.

Este senhor, dramaturgo e escritor de comédias, colocou no Facebook um post seu falando sarcasticamente do relacionamento de dois artistas famosos, Antonio Banderas e Melanie Griffit, perguntando “Como pode um gato vinte anos mais jovem, cobiçado por todos, se envolver com Melanie Griffit, decadente, cheia de Botox e de plásticas..” e etc. etc. etc. Vamos analisar isso?

Em primeiro lugar, Banderas nasceu em 1960 e Melanie em 1957. Portanto, Melanie é – em nome da verdade – apenas três anos mais velha que Banderas, e não vinte como informa o fulano do Teatro. Vi aí preconceito contra idosos e gozações em cima do envelhecimento humano, bem como julgamentos em cima da vida alheia. Pior, vi nesse sarcasmo, também, a tentativa maldosa de lançar dúvidas sobre o amor entre duas pessoas, afinal, como poderia um “gato”, independente dele ser famoso ou não, gostar de uma pessoa com mais idade. Para reforçar o que ele, o dramaturgo, acha engraçado, ele mente e altera o três anos de diferença para vinte! Por que Melaine seria “decadente”? Por ela usar drogas ou ter já usado? Por não fazer mais tanto sucesso em Hollywood como outrora? Não tem moralismo aí, senhor dramaturgo?

Infelizmente, esse dramaturgo não foi o único. Redes sociais tem sido o espaço ideal para manifestações de todas as formas de preconceito. A idosofobia é uma constante. Um outro, ferrenho anticapitalista, fez um cartaz com uma foto de um milionário idoso com uma modelo jovem e linda, junto com um discurso de que “só o capitalismo permitia isso e etc.”. Nada tenho contra posicionamentos contra o Capitalismo, sistema que se sustenta em cima de muitas injustiças. Mas acho a mensagem que esse cartaz passa também é dúbia, contém preconceitos: Uma pessoa não poderia amar outra mais velha, senão por interesses financeiros. E o mais velho só conseguiria o amor da mais jovem, comprando. Em primeiro lugar, penso que não posso combater algo que é injusto, usando para isso outras injustiças, acho extremamente incoerente. Depois, se eu for para o contraponto, para o Comunismo, este não me parece salvar as pessoas de jogos de interesse, que fazem parte do ser humano, não deste ou daquele sistema econômico. Tenho a certeza que muita gente ama o Putin ou o Fidel Castro para garantirem seus cargos no partidão, ou para não serem presos. Na cabecinha do moço comunista, amor entre um ou uma jovem e um ou uma idoso só ocorreriam por causa do dinheiro.

Bom, tenho alguns exemplos em contrário. Um, hétero. Outro, gay.

Edith Piaf

A cantora francesa, hoje um mito, Edith Piaf, já muito doente e viciada em drogas, após um desastre automobilístico que lhe provocou mais de vinte operações cirúrgicas, casou-se com 46 anos de idade com Théo Sarapho, um belíssimo grego, também cantor, 20 anos mais jovem (aqui, os vinte anos de diferença na idade é verdade..risos). Ok. Em sequência, começou o vilipêndio público, acusavam Sarapho de “oportunista” e de “gigolô” e ela de “comedora de ninfetos” e etc. Viveram um ano juntos, Piaf morreu em 1963, com 47 anos. Sabem o que Sarapho herdou dela? Dívidas e mais dívidas, somente, Piaf estava arruinada pelos gastos no tratamento com sua saúde, pela morfina que aplacava suas dores. Sarapho continuou cantando e tudo o que ganhava usou para pagar os credores e limpar o nome de Edith Piaf. E, ao fim de seis anos, tinha conseguido pagar tudo, pagar todas as contas que Piaf deixou. Então, deu um tiro em sua própria cabeça. Durante todo o período de sua viuvez, nunca foi visto com outra mulher. E, ao se matar, deixou o seguinte bilhete: “Por toi, Edith, Mon amour”.

Cristopher Isherwood

O escritor inglês que escreveu, entre outros, o “Adeus a Berlin”, cujo conto principal foi usado como história para o filme “Cabaret”, conheceu em 1952 Don Bachardy e se apaixonaram. Com um porém, que o tal dramaturgo e o moço contra o capital vão ter me explicar: Isherwood estava com 48 anos e Don, 18. Trinta anos de diferença, senhor dramaturgo… Essa união declaradamente e publicamente homossexual durou até 1986, quando Cristopher morreu. Don cuidou do amado com extrema dedicação, quando este adoeceu. O filme “Cris & Don, Uma história de amor”, de 2007 relata bem essa união. Trinta e quatro anos juntos.

Enfim, dei apenas dois exemplos, há muitos outros, mas esses são muito significativos. Eu poderia aprofundar, aqui, falando mais da recente moda de que no humor vale tudo. Não vale!

Não é possível usar preconceitos em nome do humor, do engraçado. A linguagem é a maior disseminadora de estigmas e discriminações e o humor faz parte dela. Acredito profundamente na criatividade do ser humano e dos artistas, pode-se perfeitamente fazer um humor de alto nível, sem reforçar estereótipos. Penso também que não somos ninguém para julgar a vida privada de ninguém, mesmo dos famosos. A pública, sim. Quem ele ama, se ele usa drogas ou não, o uso que ele faz do seu corpo é problema dele. Espero que as pessoas reflitam mais sobre essas grandiosas e verídicas histórias de amor onde a idade foi apenas um dado biográfico, nada além disso. Que as pessoas reflitam nas consequências que os seus comentários e cartazes em redes sociais podem provocar, tudo o que fazemos têm consequências, inclusive os risos que provocamos.

Chiquinha Gonzaga

Mais um exemplo: Em 1899, com então 52 anos, Chiquinha Gonzaga conhece João Batista Fernandes Lage, um jovem cheio de vida e talentoso aprendiz de musicista, por quem se apaixonou. Ele também se apaixonou perdidamente por essa mulher madura que tinha muito a ensinar-lhe sobre música, sobre o amor e sobre a vida. A diferença de idade era muito grande e causaria mais preconceito e sofrimento na vida de Chiquinha, caso alguém soubesse do namoro. Ela tinha 52 anos e Joãzinho, apenas 16. Temendo o preconceito, fingiu adotá-lo como filho, para viver o grande amor. Esta decisão foi tomada para evitar escândalos em respeito aos seus filhos e à relação de amor pura que mantinha com João Batista, da qual pouquíssimas pessoas na época entenderiam, além de afetar sua brilhante carreira. Chiquinha morreu em 1935, aos 87 anos de idade, nos braços do seu amado Joãozinho, com quem viveu feliz por 35 anos.

Fonte: Nossos Tons

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