A BIOGRAFIA DE UM PINTO

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Em 2015, o pinto do ator Stênio Garcia de 87 anos viralizou na internet. Caiu na boca do povo, fez o dólar baixar, o ministro da educação ser demitido, o preço da gasolina subir e, claro, terminou nas mãos ásperas do PMDB. Mas, acima de tudo isso, fez Everaldo olhar para o próprio corpo.

Com a mesma idade do ator, ele postou-se na frente do espelho e observou o resultado de uma longa estrada.

pinto

De relance, Everaldo achou banal. Um pinto igual a tantos outros. As diferenças de tamanho, cor e diâmetro não seriam suficientes para transformar o seu pinto, ou qualquer outro pinto, em algo especial.

Só que pintos têm história. O do Everaldo também tem sua própria biografia.

“Um menino”! – disse o médico ao observar o ultrassom.

O pai, animado, logo perguntou: “É o pintinho já é grande, não é”?

“Claro” – respondeu o médico. “Nem tanto” – pensou o médico.

No dia no nascimento, esse diálogo se repetiu (com pequenas alterações).

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“Um meninão” – afirmou a enfermeira para a mãe.

“E o pintinho”? – perguntou o pai.

Aliás, o pai dele tinha o estranho hábito de exibir o “pipi” do menino para todas as visitas. “Aqui está o meu garoto”, dizia para quem quisesse ouvir.

De um dia para o outro, o pinto de Everaldo deixou de ser a Monalisa da família e passou a ser um pequeno estorvo. O menino fazia muito xixi na cama.

O pintinho chorava largado durante a madrugada e a caminha amanhecia toda molhada.

O xixi na cama fez com que o pinto de Everaldo fosse parar pela primeira vez no divã. Um psicólogo infantil foi contratado para entender a origem daquela incontinência. Óbvio, não demorou para o doutor descobrir que o problema tinha origem em toda aquela festa que o papai de Everaldo fazia na primeira infância. “Vocês colocaram o pinto do Everaldo em um pedestal. Agora, que ele não é mais o meninão do papai, o pipi mais famoso da cidade, bom, agora ele está apenas tentando compensar esse déficit de atenção”.

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Everaldo mijou na cama até a adolescência. A coisa só parou quando ele, aos 14 anos, fugiu de casa. É que um dia o pai chegou em casa com uma ideia louca na cabeça de que o menino precisava ser circuncidado. Pela primeira vez, Everaldo ouviu falar em fimose, prepúcio e essas coisas. Com medo de ter o pinto cortado, Everaldo juntou as tralhas e fugiu de casa.

Não foi uma fuga muito bem-sucedida – apenas 4 horas longe do colo materno. Mas o suficiente para que ele marcasse uma posição. Everaldo não seria circuncidado. Nunca.

Na mesma época, Everaldo descobriu a masturbação. Coisa louca. Era o dia inteiro na função da punheta. O menino ficava até com olheiras de tanto prestar homenagens ao deus Onã. Anúncios inocentes em preto e branco, esses anúncios do século retrasado que só insinuavam pernas, calcanhares ou decotes eram a senha para que o rio de esperma continuasse escorrendo por toalhas, panos e cuecas.

Mesmo entre os amigos, o pinto era importante. Everaldo foi o campeão da 6ªC em xixi à distância. Nenhum outro garoto mijava tão longe quanto ele (o índice dele era olímpico). Em dias mais inspirados, ele escrevia, com mijo, o próprio nome no muro branco do colégio – posicionando-se do outro lado da rua.

Neste período, o pinto de Everaldo voltou a ser festejado.

A biografia do pinto de Everaldo tem um capítulo todo dedicado a sua iniciação sexual, suas aventuras subsequentes e broxadas ocasionais.

Destaque pra Silvinha, a primeira, a caixinha de pandora que se abriu delicada para que ele entrasse no mundo mágico das meninas. Foi estranho, claro. Ele achou que o seu pinto campeão de xixi à distância nunca mais voltaria, que se perderia naquela caverna, que como Orfeu, vejam só, olharia para trás na derradeira hora e perderia Eurídice para sempre.

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Mas a Silvinha foi legal. Depois, e nos primeiros anos, ele mantinha um caderninho com todas as meninas que levava pra cama: Joana, Maria, Lúcia, Fabíola, Fátima, Luzia… Luzia, não. Com Luzia, Everaldo não conseguiu.

Sabe-se lá o motivo, mas o pinto de Everaldo não reagiu nem depois de uma espécie de respiração boca a boca. Neste dia, Everaldo chorou com a cabeça no peito de Luiza. Eles se apaixonaram. Foi a primeira namorada de Everaldo.

Dois anos depois, durante uma partida de futebol, tomou um ponta pé no saco de um jogador adversário. Everaldo rolou no chão. Gritou. Jurou o outro jogador de morte. Tinha medo de perder o pinto pra sempre. Os dois rolaram no chão. Everaldo pegou o outro carinha pelo pescoço. Quase matou ele.

Mesmo! Não tivessem separado, hoje, Everaldo teria um assassinato nas costas.

Everaldo foi crescendo. Quase sempre usou camisinha. Quando não usava, mortificava-se pelos riscos que corria. Teve uma fase artista – em que criou uma técnica de pintura com o próprio pinto. A performance impressionou muitos críticos de arte – que fez Everaldo vender uns sete quadros pintados com o pinto para colecionadores importantes.

Com o dinheiro dos quadros, pagou a universidade e formou-se em psicologia. Estudou o pinto como representação da personalidade e marca individual.

Lançou três livros sobre o tema. Virou best-seller. Mas cansou. Começou a achar que a questão do pinto era uma grande banalidade e que essa fase já havia sido superada. Com a aposentadoria, deixou o pinto de lado.

Até que viu a foto do Stênio. Animou-se. Foi pra frente do espelho e redescobriu a graça do próprio pinto. Imediatamente, tirou fotos e mais fotos do membro e mandou para amigos e conhecidos. Em poucos minutos, seu pinto já estava bombando nas redes sociais. Não fez tanto barulho como o do Stênio, mas devolveu a alegria de viver ao nosso personagem.

“Obrigado, Stênio Garcia”, repetiu Everaldo.

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