QUEM GANHOU O DEBATE?

QUEM GANHOU O DEBATE?

Quem está dentro do quentinho de sua própria bolha ideológica tem certeza de que seu candidato venceu o debate entre os presidenciáveis, realizado na noite desta quinta (9), na TV Bandeirantes. Preso junto aos que pensam igual nas câmaras de eco das redes sociais ou das listas de WhatsApp e apartados da diferença por conta da ultrapolarização, há quem viva um mundo em que seu o desempenho de seu candidato o levará a conquistar 10 pontos percentuais na próxima pesquisa de intenção.

Por oposição, devem ter achado que o principal dele, seja quem for, passou vergonha. Pelo menos foi o que os memes – nova base da transmissão de conhecimento da civilização ocidental – assim disseram.

Na prática, um debate presidencial com oito pessoas é a festa bêbada da democracia. Não é possível aprofundar muito qualquer tema e, portanto, mesmo uma pessoa com conhecimento raso como um pires consegue sobreviver durante as suas poucas horas de duração. E as regras que possibilitam isolar candidatos acabam abrindo acordos informais de conveniência em nome da sobrevivência. Ou seja, eu pergunto a você, você pergunta pra mim e deixamos aquele chato ali, sozinho.

O debate, apesar de ter sido útil para trazer nomes desconhecidos à tona, não deve ter alterado a corrida eleitoral. Serviu, contudo, para comprovar que Lexotan não é usado apenas para acalmar depoente em CPIs no Congresso Nacional. E mostrou que, após a votação do impeachment, o nome de Deus se transformou em coringa na boca de político na TV. Não falarás o nome do senhor teu Deus em vão? Revogaram o mandamento.

Há frases e situações que atravessaram os limites das bolhas, claro. De Boulos para Meirelles: ”Aqui, nesse debate, tem 50 tons de Temer” – o que tem potencial para estampar umas das coisas mais importantes da vida: camisetas. Ou de Ciro, sobre os devaneios do Cabo Daciolo: ”A democracia é uma beleza, mas ela tem certos custos”. Benevenuto Daciolo, que zerou a internet quando sacou uma bíblia para fazer suas considerações finais. Ele, que durante seu mandato de deputado federal, propôs mudar a Constituição para trocar o “todo o poder emana do povo” para “todo o poder emana de Deus”, confundiu bancada com púlpito.

Mas, se há um ganhador no debate entre os presidenciáveis, ele é o dono de qualquer empresa de consultoria digital que esteja alugando suas fazendas de perfis falsos e bots a candidatos para influenciar a opinião de eleitores nas redes sociais.

Tivemos uma amostra do caos que nos espera nos próximos dois meses. Nas redes, nuvens de perfis simples criados especialmente para o combate político (pouco ou nenhum seguidor, nome gerado por computador, imagens genéricas de perfil) produziram e reproduziram dezenas de milhares de tuítes a favor ou contra candidatos. O objetivo foi fazer você crer que, se todo mundo está falando de algo, é por que é verdade. O que é uma grande mentira.

Isso gerou situações pitorescas. Bolsonaro foi um dos dez temas mais falados na Rússia, Cabo Daciolo figurou entre os principais do Paquistão e Ciro e Marina, do Vietnã, por exemplo.

É ótimo saber que o mundo está participando ativamente das eleições brasileiras, postando dezenas de milhares de tuítes. Eu ficaria preocupado se alguém estivesse usando robôs desses países para manipular o debate público por aqui.

A verdade é que aquilo que passa pela tela do celular já alterou a forma como vemos e percebemos debates eleitorais, dando a eles novos significados a depender dos estímulos que recebemos. Qual o impacto disso nas eleições? Ultimamente, tenho achado que, se não matar a democracia, já também demais.

Fonte: Leonardo Sakamoto

10/08/2018

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