ERRRAR È UMANO

Pessoas sem assunto no elevador falam sobre o tempo; jornalistas sem assunto na redação escrevem sobre Orkut ou Youtube. É uma receita fácil para fazer matérias que atraem leitores sem precisar levantar da cadeira ou fazer um único telefonema. Basta encontrar alguma comunidade bizarra ou curiosa ou o vídeo antigo de alguma celebridade em situação constrangedora e voilà!, temos material para encher lingüiça em jornais, sites e programas de TV.

O Jornal do Brasil foi um pouco mais longe na semana passada ao dedicar sua manchete para uma matéria de Orkut. Não era nenhuma novidade: mais um requentado em torno do tema "apologia ao crime no site de relacionamentos", dessa vez mencionando comunidades e perfis supostamente criados por traficantes ligados ao Comando Vermelho e outras facções.

Supostamente porque o texto não apontava nenhuma prova de ligação entre o material da internet e os traficantes do mundo real — o mundo do outro lado do micro, o "First Life". As comunidades e perfis tanto podiam ter sido criados por traficantes como — o que é mais provável — por algum adolescente no intervalo entre uma punheta e outra.

A matéria mal apurada descambou em barriga (erro de informação, no jargão jornalístico) com uma foto estampada na primeira página do dia 15. Confiante nas informações do Orkut, o jornal tascou que a foto mostrava um monte de traficantes armados. No mesmo dia, a realidade teve a indelicadeza de desmentir o jornal e a internet: a foto não passava de uma imagem do seriado "Cidade dos Homens" e os "traficantes" eram atores do grupo Nós do Morro, uma iniciativa cultural das mais bacanas desenvolvidas nas favelas cariocas.

A barriga descambou para a desonestidade no dia seguinte. Quando todos achavam que o jornal de Nelson Tanure cravaria um imenso "O JB errou" na primeira página para tentar resgatar o que ainda restava de sua credibilidade, o JB saiu-se com a chamada "Atores viram bandidos em páginas de apologia ao CV".

Ignorando sua responsabilidade por ter estampado na primeira página uma foto que acusava várias pessoas de crime sem verificar sua autenticidade, a reportagem não mencionava qualquer falha do JB e ainda se perdia em questionamentos irrelevantes, como quem teria colocado a foto do filme na internet.

Como afirmou o Comunique-se, o JB fez "suíte em vez de retratação".

Ninguém está livre de cometer um erro. Eu já fui responsável por vários. Está certo que errar por causa de uma apuração desleixada como a do JB é mais grave, mas muito pior é não reconhecer o erro e tentar enganar o leitor. Aí, neguinho sai do terreno do engano para cair na mentira.

Em homenagem ao JB, aí vai uma pequena coletânea de barrigas, cometidas por grandes e pequenos.


CNN mata Fidel Castro...


Urubus profissionais e prevavidos, os jornalistas adoram antecipar mortes e costumam manter um estoque de matérias prontas sobre o falecimento de várias figuras públicas, ainda que a pessoa em questão esteja transbordando saúde. Alguns jornais mantêm profissionais especializados só em escrever sobre defuntos frescos (Gay Talese, o Cara, traçou o perfil do redator de obituários do New York Times, no texto "Sr. Agourento", incluída em Fama e anonimato).

Pois não é que uma série de artes de obituários prontos com a morte de várias celebridades vazou do site da CNN em 2001? No Smoking Gun, é possível ver o que o site preparou para os falecimentos de gente como Fidel Castro, Dick Cheney e outros que continuam vivos até hoje.

Coisa parecida aconteceu com o UOL, que "matou" o governador Mário Covas um mês antes da morte real, em 2001.

...e faz Bush renunciar


Quando o primeiro-ministro Tony Blair anunciou sua renúncia, há duas semanas, a CNN mais do que rápido colocou a notícia no ar, mas enganou-se de cargo e de país e estampou: "Bush renuncia". Seria o ato falho de algum jornalista democrata?

Veja cruza tomate com boi

Um dos clássicos do anedotário jornalístico é a história de como a Veja caiu na brincadeira de Primeiro de Abril da prestigiada revista gringa New Science e, em 1983, publicou a história do "boimate", fruto do cruzamento genético entre um boi e um tomateiro. A revista chegava a dizer que "a experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica" (segundo trecho disponibilizado pelo Portal do Jornalismo Científico).

A revista mencionou o erro no seu especial de 30 anos, mas, sem muita humildade, atribuía a culpa pela barriga a "cientistas brasileiros respeitados".

Pobre véia

Era para ser mais uma notinha esquecida num canto da coluna social de um jornal com tiragem de 10 mil exemplares, mas se transformou num hit da internet. Na legenda da foto de uma respeitável senhora que fazia aniversário, o jornal A Gazeta, de São Bento do Sul (SC), manteve por engano a recomendação deixada por algum jornalista a respeito do corte na fotografia: "colocar só a véia".

Folha enforca Jesus Cristo


É provavelmente a errata mais engraçada já publicada pela Folha de S.Paulo: "Diferentemente do que foi publicado no texto 'Artistas 'periféricos' passam despercebidos' (...), Jesus não foi enforcado, mas crucificado". O texto está na coletânea de Erramos publicado na Folha Online, "uma seleção de notas embaraçosas e sugestões para evitá-las".

O site não informa, mas o autor do erro é Daniel Piza, hoje um dos principais articulistas do Estadão. Que, a julgar pelas reações à sua biografia de Machado de Assis, ainda continua a errar pequenos detalhes aqui e ali.

E os leitores que se fodam

VÁ SE FODER
Outro erro nascido da apuração defeituosa via Web. Para ilustrar a matéria de um exilado chinês que virou escritor, os redatores do capixaba A Gazeta tiraram da internet alguns caracteres chineses que acharam bonitinhos. Os leitores logo notaram o que passou batido pelos jornalistas: os caracteres não eram chineses, apenas uma versão estilizada da frase VÁ SE FODER.